Artigos

“I Vene Kemen”, o Navio da Terra

By 19 de março de 2015 No Comments

Ocasionalmente passaremos a analisar alguns fragmentos da série “History of Middle-earth” (“HoME”), “The Book of the Lost Tales part 1”1 (“Vol.1”), ainda inédita no Brasil.

Para começar, optamos por mostrar uma imagem que abre o Vol.1 do HoME, cujo título é “I Vene Kemen”.

Trata-se de um rascunho bastante inicial desenhado pelo próprio professor J. R. R. Tolkien, na qual há uma espécie de um mapa do mundo então concebido, o qual tinha o formato de um grandioso navio.

Trata-se da primeira versão do mundo criado por Tolkien para aquilo que hoje conhecemos como “legendarium”, os chamados “Lost Tales” ou “Contos Perdidos”.

O desenho contempla uma série de conceitos e lugares, conforme consigo ler, a saber (lembrando que tratam-se de conceitos iniciais de elementos que hoje conhecemos, em forma mais desenvolvida/acabada, por meio da obra publicada):

  • Nūme: Oeste. Provavelmente referindo-se à Extremo Oeste (hoje conhecemos como Aman);
  • Valnir: um conceito inicial do que hoje conhecemos como Valinor;
  • Taniquetil;
  • Harmalin: mais tarde passou a ser Arvalin. Esta é a região em que Ungoliant vivia antes do Escurecimento de Valinor. No Silmarillion publicado, Ungoliant vivia em Avathar2, antes de ir para a Terra-média com Melkor;
  • As Árvores;
  • Toros valinoriva: parece se referir às Montanhas de Valinor, as Pelóri;
  • Tolli Kimpelear: parece se referir às Ilhas Encantadas, criadas após o Ocaso de Valinor;
  • Tol Eressëa;
  • I Tolli Kuruvar: as Ilhas Encantadas3, criadas após o Ocaso de Valinor (o nome Qenya4 de Tolli Kimpelear;
  • Haloisi Velike: o Grande Mar;
  • Ô: o Mar;
  • I Nori Landar: aparentemente se refere às Grandes Terras. Um conceito que provavelmente evolui e, com o tempo, passou a ser a Terra-média;
  • Koivienéni: mais tarde, Cuiviénen;
  • Palisor: na versão inicial do legendarium, Tolkien nomeou como Palisor a região média das Grandes Terras. É nela onde está o Koivienéni, as Águas do Despertar;
  • Sil: a Lua;
  • Ûr: o Sol;
  • Luvier: Núvens;
  • Oronto: Leste;
  • Vaitya, Ilwë, Vilna: camadas do ar5;
  • Ulmonan: os majestosos salões de Ulmo nesta versão inicial do legendarium. Segundo Christopher Tolkien, seu pai nunca explicou o significado de –nan. Estão localizados dentro do Oceano Circundante;
  • Uin: uma grande baleia que esta a serviço de Ulmo. Ela que carregou Tol Eressëa para perto de Valinor nesta versão do legendarium. É tida como a primeira baleia e também puxava a carruagem de Ulmo6; e
  • Vai ou Neni Erùmear: o Oceano Circundante.

Neste primeiro volume da série, Christopher Tolkien nos dá a informação de que “I Vene Kemen” está em Qenya e que tal nome talvez significa “A Forma da Terra” ou “O Navio da Terra”.

O element “vene” pode estar relacionado com a raíz “vene” “forma” e seu derivative “venë” (“pequeno bote”). Para o element “kemen”, o Léxico Qenya contem as palavras “kemi” (“terra, solo”) e kemen (“solo”), derivados da raíz “keme”.

1 Tradução livre: “História da Terra-média, O Livro dos Contos Perdidos parte 1”.
2 Avathar é uma faixa estreita de terra ao pé da parte sul das Pelóri, em Aman.
3 Curiosa é a menção que vemos em Roverandom às Ilhas Encantadas, através das quais era possível ver o Reino Élfico.
4 Qenya é o nome que Tolkien dá originalmente ao idioma dos Altos Elfos que, mais tarde, evoluiria para aquilo que passamos a conhecer como “Quenya”, em O Senhor dos Anéis.
5 Nesta ilustração, Vaitya (palavra Qenya) é a mais alta das camadas de ar, a qual esta envolta ao redor do mundo e fora dele. É uma camada escura e de fluir vagaroso. Nesta versão primitiva do Livro dos Contos Perdidos, as formas Qenya primitivas Vai e Vatia são derivadas da raíz vaya- (“encobrir/enrolar”). Ilwë é a camada intermediária, que flui por entre as estrelas. Sua raíz Qenya ilu- dá a ideia de “éter, os finos ares por entre as estrelas”, de onde deriva o nome de Illuvatar; em Qenya, Ilwë é “céu, a camada azul intermediária que fui por entre as estrelas”. Vilna, a camada de ar mais próxima do mundo, o próprio ar que se respira. Em Qenya, da raíz vili- deriva o nome Vilna (mais tarde mudado para Vilya), que significa “ar (mais baixo”).
6 Mais uma ligação com Uin, a baleia de Roverandom.
7 As versões do HoME um se referem a Vai como o Oceano Circundante, com águas tão rasas que eram impossíveis de serem navegadas, exceto pelos peixes e pelo carro de Ulmo.

Leave a Reply