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Considerações sobre O Hobbit – A Batalha dos Cinco Exércitos e os “Were-worms”

By 13 de julho de 2015 2 Comments

Lhes brindamos mais um artigo fruto da parceria do Círculo Nazgûl com a Sociedade de Tolkien Brasileira.  Esperamos que lhes seja útil.

 

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Arte Conceitual – Weta/Warner

Introdução

Poucas não foram as críticas aos três filmes inspirados em O Hobbit, mas as mais duras recaíram sobre a última parte, A Batalha dos Cinco Exércitos. Não se quer, com o presente texto, criticar nem defender a obra cinematográfica, mas explicar um ponto que causou bastante confusão para os fãs (especialmente aos brasileiros).

Em que pese todas as críticas, algo que causou grande estranheza aos que assistiram ao filme foi a aparição de “vermes gigante”, os quais tem a finalidade única de permitir ao exército de Azog (?) chegar em Erebor (porque eles não comeram os anões e os elfos é algo que provavelmente nunca venhamos a descobrir).

Mas o fã (o que dizer do mais radical?) pode ter pensado: “o Peter Jackson é louco e tirou isso da mente doentia dele”. Talvez… Risos.

Alguns sites famosos por compilar informações sobre as obras do Professor dizem que, muito embora não exista uma constatação expressa disso (ao menos não que eu tenha lido), provavelmente a equipe de roteiristas pegou um parágrafo do primeiro capitulo de O Hobbit e ampliou isso de tal forma, que acabaram criando esse conceito de vermes gigantes. Mas veja: isso é mera conjectura (mas é a única explicação plausível) de tais sites.

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Mas… como assim? Os roteiristas do filme tiraram isso do primeiro capítulo de O Hobbit? De onde?

Há uma associação direta que se pode fazer do Hobbit, mas, para quem leu em português isso pode não parecer tão claro. Diz a edição da Martins Fontes:

“Digam-me o que vocês querem que seja feito e vou tentar fazê-lo, mesmo que eu tenha de andar daqui até o leste do leste e lutar contra os Homens-dragões selvagens no Último Deserto.” – CAPÍTULO I, Uma festa inesperada

No original:

“Tell me what you want done, and I will try it, if I have to walk from here to the East of East and fight the wild Were-worms in the Last Desert.”

Da análise do restante da obra do professor, é possível considerar mais duas passagens como sendo “passíveis” de terem inspirado esses vermes gigantes. A primeira delas está em O Senhor dos Anéis, as Duas Torres.

“— Lutamos muito abaixo da terra vivente, onde não se conta o tempo. Ele sempre me agarrava e eu sempre o derrubava, até que finalmente ele fugiu para dentro de túneis escuros. Estes não foram feitos pelo povo de Durin, Gimli, filho de Glóin. Muito, muito abaixo das escavações dos anões, o mundo é corroído por seres sem nome. Nem mesmo Sauron os conhece. São mais velhos que ele.” (As Duas Torres – Livro III, Capítulo V – O Cavaleiro Branco)

We fought far under the living earth, where time is not counted. Ever he clutched me, and ever I hewed him, till at last he fled into dark tunnels. They were not made by Durin’s folk, Gimli son of Gloin. Far, far below the deepest delving of the Dwarves, the world is gnawed by nameless things. Even Sauron knows them not. They are older than he.

Outro aspecto pode ser encontrado no próprio O Hobbit:

Então marcharam e juntaram-se, em colinas e vales, indo sempre por túneis ou sob a proteção da noite, até que, ao redor e sob a grande montanha Gundabad do Norte, onde ficava a sua capital, um vasto exército se reuniu, pronto para varrer tempestade. Souberam então da morte de Smaug.” (O Hobbit, capítulo XVII – Explode a tempestade”)

Ora, da amálgama dessas passagens, pode ter surgido a ideia dos grandes vermes que vemos nos filmes. Os sites que alegam que esses “vermes gigantes” foram inspirados nessa parte teorizam que estes seriam os tais dos “were-worms” do texto original. Mas seria correto fazer essa associação? Veremos adiante.

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Aspectos linguísticos

Normalmente, na atualidade, verifica-se que comumente “worm” é traduzido como “verme”, que é a acepção mais comum da palavra. Contudo, há outras conotações, ainda que arcaicas, que não devem ser esquecidas.

Em conversa com Gabriel Oliva Brum, tradutor de diversos livros, inclusive de As Cartas de J.R.R. Tolkien e bastante versado na obra do Professor, ele esclareceu que:

“Verme” nunca teve conotação de “serpente”, “dragão”, vindo do latim vermis “inseto, verme”. “Worm”, por outro lado, significa justamente isso: serpente, cobra, dragão, que vem do inglês antigo wyrm, relacionado ao nórdico antigo ormr, todas significando “dragão, serpente”. Essa é inclusive a primeira acepção da palavra no Oxford English Dictionary (OED); a equivalente à acepção comum em português é apenas a terceira no OED.”

Vale destacar que o elemento “were-” é de origem germânica e designa justamente isso: seres humanos, sendo certo que tal prefixo hoje é bastante conhecido pelos lobisomens – werewolves, em inglês.  Sem olvidar, ainda, que na Terra-média, “Lobisomens” não se transformavam em seres humanos. Talvez (e somente talvez) fossem assim designados em função de seu porte e inteligência; nunca à habilidade de se transformar de “homem” em “besta” e vice-versa, conforme a lua cheia aparecesse…

Para Gabriel, a melhor tradução para “were-worms” seria:

Provavelmente algo com “drac-” ou “drag-“, tipo “dragomens” ou “dracomens”. Detalhe que não dá pra saber se essas criaturas eram homens que se transformavam em “dragões” ou apenas um tipo de serpente que sofria alguma transformação. O termo só ocorre uma vez no Hobbit e é meio que apenas para dar um tom de exotismo na bravata do Bilbo. Em versões preliminares da história, o termo aparece como “Wireworms”: “if I have to walk from here to the last desert in the East and fight the Wild Wireworms of the Chinese”. Wireworm é a larva de vários tipos de escaravelho.

Tal constatação com relação à versão preliminar de O Hobbit nos parece precisa e é relatada por John D. Rateliff, em seu “The History of The Hobbit, Mr. Baggins, The First Phase”, obra na qual o autor relata seu estudo sobre os diversos manuscritos e versões que resultaram no que hoje conhecemos como “O Hobbit”.

Dizer que havia Homens-dragão com a capacidade de fazer essa troca de forma é ingressar, de forma inconteste, no reino da especulação.

Considerações internas à obra

Quando Bilbo fala dos “Were-worms”, é possível pensar que ele está se referindo a antigas lendas dos Hobbits (outras aparecem no As Aventuras de Tom Bombadil), mas provavelmente isso quer dar a ideia ou de que Bilbo foi extremamente irônico ou que realmente estava pronto para fazer aquilo que fosse necessário para ajudar a Companhia de Thorin.

Vale lembrar que algumas lendas dos Hobbits guardam alguma verdade, como é o caso dos olifantes, mais tarde vistos por Sam e Frodo nas fronteiras de Ithilien. Então talvez alguma história sobre dragões ou outras criaturas de um passado remoto tenham chegado aos Hobbits. Novamente entramos na especulação.

Por fim: além da citação inicialmente feita, em “O Hobbit”, Tolkien não fez nenhuma referência adicional aos “Were-worms” em nenhuma das obras já publicadas (incluindo obras póstumas).

Outras obras 

Uma consideração inicial é que na capa de O Silmarillion ilustrada por John Howe, ao lado de um dos dragões que faz o cerco a Gondolin, é possível ver um ser cilíndrico, parecido a uma centopeia, junto com as hordas de Morgoth. O próprio autor reconhece que isso não era tão acurado, mas na hora apareceu na tela e lhe pareceu correto. O fato é, no mínimo, curioso, já que o artista é um dos responsáveis pela arte dos filmes de Peter Jackson. Confira-se o discurso do artista no site dele: http://www.john-howe.com/portfolio/gallery/details.php?image_id=287.

Interessante notar que a primeira reação que as pessoas que viram O Hobbit: A Batalha dos Cinco Exércitos foi associar os “vermes” de Peter Jackson aos “Shai-hulud” do universo ficcional de Frank Herbert, “Duna”.

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DUNE – tribute by Gary Jamroz http://migre.me/qKLKr

Os “Shai-hulud” são os famosos vermes das areias escaldantes da desértica Arrakis e certamente alguma referência visual pode ser tirada dessa cena.

Outra obra de fantasia que utiliza gigantes vermes de areia, chamados “jumara”, é a série A Roda do Tempo, de Robert Jordan (e finalizada por Brandon Sanderson após a morte do autor). Na região conhecida como “Blight”, também desértica, há criaturas imensas, verdadeiros vermes gigantes de areia. A Roda do Tempo é uma obra que tem muitas referências a outros clássicos, como o próprio Senhor dos Anéis e Duna, mas acaba trilhando, após o final do primeiro dos quatorze livros da série, por rumos próprios de forma bastante interessante.

No campo das obras de cinema, além da adaptação de Duna, é possível lembrar das próprias minhocas gigantes usadas por Peter Jackson em seu remake de King Kong – há quem diga que os próprios morcegos de Gundabad podem ser associados aos morcegos gigantes da ilha onde o Rei estava…

 Nossas conclusões…

… são no sentido de que é impossível tirar conclusões sobre o que eram, na cabeça de Tolkien, os tais “Were-worms” do Último Deserto. Difícil até dizer o que era o Último Deserto. Provavelmente trata-se de lendas dos hobbits, que podem ter algum fundo de verdade (tal como os olifantes), mas é praticamente impossível ter certeza.

Também é difícil dizer qual a fonte de inspiração dos cineastas ao inserirem os tais Vermes Gigantes: estariam mesmo inspirados nos “were-worms”? A probabilidade é alta, mas também não há muito como ter certeza: esperamos a publicação do livro “The Hobbit: The Battle of the Five Armies – Chronicles – The art of War” para ver se a produção assume publicamente quais foram as inspirações para esses gigantes escavadores que facilitaram a vida dos orcs.

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Capa do livro da Weta – “The Hobbit: The Battle of the Five Armies – Chronicles – The art of War”





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