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AFINAL, O QUE É “LEGENDARIUM”? (E o que é “cânone”, em Tolkien?)

By 21 de março de 2015 No Comments

AFINAL, O QUE É “LEGENDARIUM”?

 (E o que é “cânone” em Tolkien?)

 

Muitas pessoas, quando se deparam com os trabalhos do Professor Tolkien além de O Hobbit (OH) e O Senhor dos Anéis (SdA) notam que alguns deles não se referem à Terra-média e seus habitantes, que não há menção a Valinor e aos Poderes do Oeste, ou seja, e se questionam: mas isso guarda relação com Arda?

É nesse contexto que o próprio professor explica, em algumas de suas cartas, o conceito, que ele próprio utiliza, de “legendarium”, por vezes referido como sua própria “mitologia”.

Abrindo parênteses, vale fazer uma breve consideração sobre a origem da palavra “legendarium”. A palavra se refere a uma coleção literária de lendas. É um substantivo em latim de origem medieval (e obscura) originalmente utilizando para se referir lendas das vidas de santos. Um exemplo é o “Anjou Legendarium[1], do século XIV.

Fecham-se os parênteses.

Neste sentido, vejamos as cartas:

 “Você pediu um breve esboço do meu material que está ligado com meu mundo imaginário. É difícil dizer qualquer coisa sem dizer demais: a tentativa de dizer algumas poucas palavras abre uma comporta de entusiasmo, o egoísta e artista imediatamente deseja dizer como o material cresceu, como ele é e o que (ele pensa que) pretende ou está tentando representar com tal material.

(…)

Não ria! Mas, certa vez (minha crista há muito foi baixada), eu tinha em mente criar um corpo de lendas mais ou menos associadas, que abrangesse desde o amplo e cosmogônico até o nível do conto de fadas romântico — o maior apoiado no menor em contato com a terra, o menor sorvendo esplendor do vasto pano de fundo —, que eu poderia dedicar simplesmente à Inglaterra, ao meu país. Deveria possuir o tom e a qualidade que eu desejava, um tanto sereno e claro, com a fragrância de nosso “ar” (o clima e solo do noroeste, tendo em vista a Grã-Bretanha e as partes de cá da Europa: não a Itália ou o Egeu, muito menos o Oriente) e, embora possuísse (caso eu pudesse alcançá-la) a clara beleza elusiva que alguns chamara de céltica (embora ela raramente seja encontrada em antigos materiais célticos genuínos), ele deveria ser “elevado”, purgado do grosseiro e adequado à mente mais adulta de uma terra já há muito saturada de poesia. Desenvolveria alguns dos grandes contos na sua plenitude e deixaria muitos apenas no projeto e esboçados. Os ciclos deveriam ligar-se a um todo majestoso e ainda assim deixar espaço para outras mentes e mãos, lidando com a tinta, música e drama. Absurdo.

(…)

É claro que criei e até escrevi muitas outras coisas (especialmente para meus filhos). Algumas fugiram do alcance desse tema aquisitivo ramificado, sendo fundamental e radicalmente não-relacionadas: Folha, por Cisco e Fazendeiro Giles de Ham, por exemplo, as duas únicas que foram publicadas. O Hobbit, que possui uma vida muito mais essencial nele, foi concebido de maneira bastante independente: eu não sabia quando o iniciei que ele fazia parte do tema. Mas ele provou ser a descoberta da conclusão do todo, seu modo de descer à terra e fundir-se na “história”. Assim como presume-se que as Lendas elevadas do início sejam a visão das coisas através de mentes Élficas, a história intermediária do Hobbit assume um ponto de vista praticamente humano — e a última história combina-os. (…)”[2] (grifos nossos)

 

Esta carta é muito importante e em edições de “O Silmarillion” em inglês, foi incluída como uma espécie de “abertura” do livro, para preparar o leitor sobre o que lerá em seguida. Mas ela revela muito sobre o pensamento do autor sobre este corpus mitológico que ele concebeu em seu fantástico processo criativo. Vale a pena a leitura.

Mas neste trecho temos uma informação muito importante: nem todos os escritos dele são sobre esse “legendarium”: ele escreveu outras coisas, mas que não se relacionam com essa construção mitológica. O próprio OH não era parte disso e, após SdA, acabou sendo envolvido por esse contexto maior.

É nesta carta que vemos a origem do OH e sua famosa frase de abertura…

Continuemos pelas demais cartas que tratam do assunto, sob a visão de Tolkien:

“Muito obrigado por sua longa carta. Lamento não dispor do tempo para respondê-la do modo tão completo quanto merece. De qualquer forma, o senhor me fez o elogio de levar-me a sério, apesar de não poder evitar de me perguntar se não é “sério demais” ou nas direções erradas. A história, no final das contas, é em última análise um conto, algo literário, com a intenção de ter um efeito literário, e não uma história real. Que o artifício adotado, o de dar ao seu cenário uma atmosfera ou sensação histórica, e (uma ilusão de ?) três dimensões, é bem-sucedido, parece ser mostrado pelo fato de que vários

correspondentes trataram-no do mesmo modo — de acordo com seus diferentes pontos de interesse ou conhecimento: i.e. como se fosse um relato de épocas e lugares “reais”, que minha ignorância ou desatenção apresentou de forma errônea em certos lugares ou falhou em descrever apropriadamente em outros. Sua economia, ciência, artefatos, religião e filosofia são defeituosos, ou pelo menos incompletos.

Já considerei, é claro, todos os pontos que o senhor levanta. (…)

A “reencarnação” pode ser uma má teologia (certamente esta ao invés da metafísica) se aplicada à Humanidade; e meu legendário[3], especialmente a “Queda de Númenor”, que se situa imediatamente antes de O Senhor dos Anéis, é baseado em minha própria visão: a de que os Homens são essencialmente mortais e não devem tentar tornar-se “imortais” na carne. Mas não vejo como mesmo no Mundo Primário qualquer teólogo ou filósofo, a não ser que muito melhor informado sobre a relação de espírito e corpo do que acredito que qualquer um seja, poderia negar a possibilidade da reencarnação como um modo de existência, prescrito a certas espécies de criaturas encarnadas racionais.”[4]

Como se vê (e se pode depreender da leitura da carta acima), o seu conteúdo versa sobre questões filosóficas e conceituais bastante interessantes com relação ao pensamento de Tolkien.

 “Na verdade, na imaginação desta história estamos vivendo agora em uma Terra fisicamente redonda. Mas o “legendário” inteiro possui uma transição de um mundo plano (ou pelo menos um “oikouμένη” com bordas em todo seu redor) a um globo: uma transição inevitável, suponho, para um moderno “criador de mitos” com uma mente submetida às mesmas “aparências” as quais foram submetidos homens antigos, e que de certa forma alimentou-se de seus mitos, mas que aprendeu que a Terra era redonda desde os primeiros anos. Tão profunda foi a impressão exercida pela “astronomia” sobre mim que não creio que pudesse lidar com ou conceber imaginativamente um mundo plano, apesar de um mundo de uma Terra estática com um Sol circundando-a parecer mais fácil (de se imaginar, se não de se racionalizar).”[5] (grifos nossos)

Segue em outra carta:

 “Contudo, o início do legendário, do qual a Trilogia é parte (a conclusão), foi uma tentativa de reorganizar algumas partes do Kalevala, em especial o conto de Kullervo, o infeliz, em uma forma de minha própria autoria. Isso começou, como eu disse, no período do Bacharelado; quase que desastrosamente, visto que cheguei muito perto de ter minha bolsa de estudos tirada de mim, se não expulso. Digamos de 1912 a 1913. Conforme se desenvolvia, na prática escrevia em verso, apesar de a primeira verdadeira história desse mundo imaginário quase totalmente formado conforme aparece agora ter sido escrita em prosa durante a licença por motivo de doença no final de 1916: A Queda de Gondolin, a qual tive a insolência de ler para o Clube de Ensaios da Faculdade Exeter em 1918. Escrevi muito mais em hospitais antes do fim da Primeira Grande Guerra.

(…)

O Hobbit originalmente não possuía muita relação, embora ele tenha sido inevitavelmente atraído para a circunferência da construção maior; e, na ocasião, modificado. Ele realmente foi pretendido de modo infeliz, pelo que me consta, como uma “história para crianças”, e como na época eu não possuía senso erudito, e meus filhos não eram velhos o suficiente para me corrigir, ele possui algumas das bobagens de costumes adquiridas irrefletidamente do tipo de material que me servia, tal como Chaucer podia pegar um refrão de menestrel. Arrependo-me profundamente delas. As crianças inteligentes também.”[6] (grifo nosso)

 

Adiante colacionamos fragmentos em que Tolkien se refere ao legendarium como “mitologia”. A primeira citada abaixo é uma epístola anterior às acima relacionadas, mas não por isso menos relevante:

 “Não achava que algo do que entreguei ao senhor seria satisfatório. Mas eu desejava saber se alguma parte do material possuía algum valor exterior não pessoal. Acredito estar claro que, fora isso, uma continuação ou sucessor para O Hobbit é exigido. Prometo dar atenção a essa questão. Mas tenho certeza de que tenho a simpatia do senhor quando digo que a construção de uma mitologia (e dois idiomas) elaborada e consistente ocupa por demais a mente, e as Silmarils estão no meu coração. De modo que só Deus sabe o que acontecerá.”[7] (grifo nosso)

Neste primeiro fragmento, Tolkien havia submetido o Quenta Silmarillion para seu editor, junto com a Gesta de Beren e Lúthien (inacabado), em formato de poema. Embora tenha sido rejeitado (ainda que em formato preliminar e não acabado), foi bem recebido por leitores externos (embora não tenha gostado do poema…). E aqui já é possível identificar um dos principais pontos sobre o Silmarillion: era a obra de sua vida.

Seguimos:

 “Tendo designado a mim mesmo uma tarefa, cuja arrogância reconheci totalmente e pela qual tremi, sendo precisamente a de restaurar aos ingleses uma tradição épica e de apresentar-lhes uma mitologia deles próprios, é maravilhoso saber que fui bem-sucedido, pelo menos com aqueles que ainda possuem o coração e a mente não-enegrecidos.”[8] (grifo nosso)

E, por fim, Tolkien comentando trechos da introdução sueca, feita por Ake Ohlmarks, de O Senhor dos Anéis. A carta demonstra claramente a irritação de Tolkien com o autor da introdução (com razão).

O trecho inicial, em itálico, sem grifo ou negrito é transcrição de parte do texto de Ake Ohlmarks; ainda com relação a esta introdução, os colchetes são de Humphrey Carpenter:

Aqui [em Mordor] governa a personificação do poder satânico, Sauron (interpretado talvez, do mesmo modo parcial [como outras identificações que Ohlmarks fez], como Stalin). 

Não há “talvez” sobre isso. Repudio totalmente qualquer “interpretação”, o que me enfurece. A situação foi concebida muito antes da revolução russa. Tal alegoria é completamente estranha ao meu pensamento. A disposição de Mordor no leste deveu-se à simples necessidade narrativa e geográfica, dentro da minha “mitologia”. A fortaleza original do Mal ficava (como tradicionalmente) no Norte; mas como esta foi destruída, e estava de fato submergida, tinha de haver uma nova fortaleza, bem distante dos Valar, dos Elfos e do poder marítimo de Númenor.”[9] (grifo nosso)

Todas estas citações das diversas correspondências que Tolkien manteve em sua vida demonstram que há um sentido bastante específico para o conceito “legendarium”: tudo aquilo que, independentemente da fase da vida de Tolkien em que foi escrito e da coerência (ou falta dela) com as obras publicadas durante sua vida, referem-se à sua criação maior, ou seja, a Arda e seus habitantes (inclusive aqueles que não lá habitam, mas que participaram no processo de criação de Arda). Esta é a “mitologia” de Tolkien.

Assim, dentro do conceito de “legendarium”, encontramos todo e qualquer texto que discorra, ainda que de forma distinta das obras publicadas, sobre seu mundo/mitologia imaginária, sejam textos anteriores ou posteriores a aqueles que vieram a ser publicados.

Neste caminho, é interessante notar a natureza dúplice de OH, vez que conceitualmente, não estava incluído dentro do “legendarium”, mas após a publicação do SdA, após a revisão, passou a incluir.

Ainda assim, há textos do professor, como em Roverandom, que utilizam situações ou personagens que constam (ainda que tenham sido abandonados posteriormente) do “legendarium”. Tal é o caso da baleia Uin, que leva Roverandom (antes apenas Rover) em sua viagem fantástica: no “Book of the Lost Tales”  vemos que Uin é uma grande baleia que esta a serviço de Ulmo – foi ela que carregou Tol Eressëa para perto de Valinor nesta versão do texto, parte integrante do “legendarium”; é tida como a primeira baleia e também puxava a carruagem de Ulmo.

Delimitado, portanto, o escopo do conceito “legendarium”, isso nos leva a uma segunda questão, e que pode ser percebida já na carta 131 acima citada: se tudo é “legendarium”, o que pode ser considerado como “cânone”.

Na linguagem literária, cânone é aquela verdade absoluta dentro de uma obra, aquilo que não pode ser contestado. Neste aspecto, o “legendarium” é bastante complexo!

Apenas quatro trabalhos publicados ainda em vida pelo Professor Tolkien podem ser considerados como cânones: OH, SdA, As Aventuras de Tom Bombadil e o, ainda inédito no Brasil, “The Road Goes Ever On”.

Ainda assim, não há consistência completa entre estes livros, dado que o Hobbit foi revisado por seu autor duas vezes e o SdA, uma. Ainda assim, a maior concordância entre as fontes é encontrada nos textos (a partir da) segunda edição do Hobbit (1950) e da primeira edição dos demais (1954-55).

Desta forma, sequer o texto do Silmarillion pode ser considerado como cânone (ao menos em sua inteireza), pois há grande influência editorial nas escolhas dos textos publicados (Tolkien havia revisado muita coisa posteriormente, mas sem concluir) e, inclusive, composição de texto para suprir as lacunas, como o próprio Christopher Tolkien expressa.

À guisa de exemplo: A Ruína de Doriath e a Queda de Gondolin, como publicados, tem boa parte de seu texto escrito por Christopher Tolkien e Guy Gavriel Kay (autor, entre outros, de Tigana).

E o problema da consistência todo reside no fato de que Tolkien, como já expressado acima, via em sua mitologia o trabalho de sua vida. Ele escreveu sobre isso desde sempre e sempre voltava, revisava e reformulava suas ideias.

Não só isso: ele intencionalmente deixou lacunas, para fim de dar maior credibilidade à sua criação, tal como é o caso de Tom Bombadil… Embora seja frustrante (para nós), isso faz com que a sub-criação de Tolkien pareça mais natural: quem acaso tem todas as respostas sobre a existência primária?

Embora tenhamos os textos postumamente publicados, vale deixar claro que de forma alguma eles devem ser sobrepostos aos textos publicados em vida, pois nada daquilo pode ser considerado como forma definitiva, apenas aquilo sobre o qual a publicação determinou como “verdade” – e ainda assim, Tolkien se “atreveu” a mudar os textos publicados para permitir maior coerência entre eles.

O deleite, contudo, sempre existirá na leitura dos textos “não-canônicos” (por assim dizer), vez que ele nos permite elucubrações e formulação de teorias e, mais ainda, adentrar à mente fantástica deste grande e querido autor, J.R.R. Tolkien, nosso herói laureado.

ANEXO:

 Obras[10] de Tolkien que podem ser consideradas como pertencentes, de alguma forma, ao legendarium :

 

  • Livros:
  • O Hobbit;
  • O Senhor dos Anéis;
  • As Aventuras de Tom Bombadil;
  • The Road Goes Ever On” (inédito em português brasileiro);
  • A Última Canção de Bilbo;
  • O Silmarillion;
  • Os Contos Inacabados;
  • The History of Middle-earth” (inédito em português brasileiro);
  • R.R. Tolkien: Artist and Illustrator” (inédito em português brasileiro; inclui fragmentos de escritos não publicados);
  • Pictures by J.R.R. Tolkien” (inédito em português brasileiro); e
  • The Art of The Hobbit” (inédito em português brasileiro).

 

  • Periódicos :
  • Vinyar Tengwar” (inédito em português brasileiro; diversas edições contém material de autoria do Prof. Tolkien); e
  • Parma Eldalamberon” (inédito em português brasileiro; diversas edições contém material de autoria do Prof. Tolkien)

 

  • Outras obras que possuem conteúdo ligado ao legendarium (feitos com base em documentos de autoria de Tolkien):

 

  • As Cartas de J.R.R. Tolkien (diversas cartas discutem assuntos do legendarium);
  • The Monsters and the Critics and Other Essays” (inédito em português brasileiro; um dos ensaios contém uma série de notas de Christopher Tolkien, nas quais há informações sobre o legendarium);
  • The History of The Hobbit”;
  • The Annotated Hobbit”;
  • A Brief History of The Hobbit”; e
  • The Lord of the Rings: A Reader’s Companion”.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

[1] Sobre “Anjou Legendarium”, de acordo com o site http://www.hung-art.hu/frames-e.html?/english/zmisc/miniatur/14_sz/anjou/index.html, dedicado às Belas Artes da Hungria: (tradução livre”) “Esta coletânea de lendas foi feita por ocasião da jornada italianda de Charles Robert de Anjou e a criança Príncipe Andrew. Fragmentos desta coleção podem ser encontrados no Vaticano, na Biblioteca Morgan, Nova Iorque e em Hermitage, São Petesburgo. A coletânea contém histórias da vida de santos importantes para a Casa Anjou. Era dirigida a crianças, com textos curtos para cada imagem”.

[2] Carta 131, para Milton Waldman. Não está datada, mas, Segundo Humphrey Carpenter, deve ser do final de 1951.

[3] Legendário aqui como “legendarium”.

[4] Carta 153, para Peter Hastings, de setembro de 1953.

[5] Carta 154, para Naomi Mitchison, de 25 de setembro de 1954.

[6] Carta 163, para W. H. Auden, de 7 de junho de 1955.

[7] Carta 19, para Stanley Unwin, de 16 de dezembro de 1937.

[8] Carta 180, para Sr. Thompson, de 14 de janeiro de 1956.

[9] Carta 229, para Allen & Unwin, de 29 de fevereiro de 1961.

[10] A presente lista foi feita com base na lista do site http://tolkiengateway.net/wiki/Legendarium, mas foi reestruturada com o que nos parece mais adequado. Lá, ainda, há outras fontes, como entrevistas e lembranças de pessoas que tiveram contato com o Professor, as quais não foram inseridas neste Anexo.

 

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